Última actualização: 13 May 2016.
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23-11-2017
Director: Filomena Marta
Periodicidade: Semanal

Por que somos exigentes com as adopções?

 Por que somos exigentes com as adopções?

por Filomena Marta

 

 ANTES - 24 de Julho de 2014

 

DEPOIS - 08 de Agosto de 2014

 

Duas semanas separam estas imagens. Apenas duas semanas.


A fotografia não foi sequer tirada no dia em que a gata foi retirada à adoptante e internada na clínica veterinária, prostrada, em péssimo estado e minada de pulgas. Esta imagem já tem 24 horas de soro, medicação e tratamento imediato contra a infestação de pulgas.


A notícia apanhou-me de surpresa e provocou-me choque, pois estive na clínica e não reconheci a gata que fotografara 15 dias antes. Uma pequenita branquinha como neve, meiga e que adorava brincar com os bebés que também aguardavam adopção. Já tinha no seu curriculum a cirurgia de retirada de um olho doente, sem possibilidade de recuperação. No horizonte, a promessa de uma casa onde poderia ser feliz e protegida.


Perguntei, impressionada, o que tinha acontecido à gatinha que estava na jaula de internamento. “Não sabemos, está minada de pulgas e muito debilitada. Tinha sido adoptada e agora está assim”. Pergunta minha, óbvia, sobre há quanto tempo tinha sido adoptada, ao que uma das veterinárias comentou que já deveria ter sido há muito tempo. A informação da auxiliar surpreendeu-nos todas “foi adoptada há uns 10 dias”.


Saí, ainda impressionada, mas sem imaginar o choque seguinte. Tinha um telefonema não atendido da protectora da gatinha branca sem o olho, que tinha fotografado e sabia ter sido entregue para adopção. Telefonei. “Filomena, lembra-se de lhe ter pedido para fotografar a minha branquinha, por garantia? Ainda tem as fotografias? É que a adopção correu muito mal.” Uma luz acendeu-se no meu cérebro: “Não me diga que é a gatinha que está aqui no veterinário?!”, e a resposta triste “digo sim, Filomena, é ela”.

Ouvi toda a história e fiquei a saber que existem mais dois animais em risco naquela casa, um gato com certeza também minado de pulgas e uma cadela boxer que, segundo a putativa dona, “está muito estranha, abana muito a cabeça e anda a ganir”. Adivinhamos, pois claro, uma otite já grave e a protectora que acabou de salvar pela segunda vez a sua gata branca vai também tomar a seu cargo o futuro dos dois animais daquela casa, ensinando, educando e conduzindo para o veterinário.


Lembrei-me de um vizinho, daqueles que grita para mim “Filomena, anda ali um gato bebé”, dizer-me, indignado, que uma amiga queria adoptar um gatinho e que lhe deram “um questionário com umas cem perguntas para responder”, e que a amiga tinha desistido porque achava um exagero. Expliquei-lhe que era prática comum em países civilizados e que quem não demonstra a boa-fé de responder às nossas perguntas também não nos interessa para adoptante. Quem não deve, não teme. Deve, isso sim, achar natural o cuidado que se tem em garantir uma boa adopção, pois uma vida está em jogo. Uma vida que tantas vezes foi salva com grande angústia e investimento afectivo, de tempo e de dinheiro pessoal, pois trata-se de protectores particulares de animais (PPA).
Os PPA são aqueles que salvam e que colocam nas mãos dos “outros” os animais já recuperados, tratados, operados e esterilizados. Porque os “outros” são tantas vezes os mesmos que passam por um animal com fome e em mau estado na rua e que nada fazem para o ajudar.


Lembrei-me, também, da história que me contaram sobre o telefonema de um homem que queria adoptar um gatinho e calmamente disse “venham cá trazê-lo, é melhor não o mandarem pelo correio porque pode chegar cá em mau estado”…!!! Pois é, pode fechar a boca… nós também ficámos de boca aberta.


Todos os PPA passam, em dada altura, por uma situação angustiante de uma adopção terrivelmente falhada. Muitos animais são de novo resgatados com traumas, alguns mesmo com sequelas físicas. Com todo o cuidado que se tenta ter, podemos sempre errar na avaliação de um potencial adoptante. Algo que nos deixa constantemente arrepiados, pois as vítimas destas situações são sempre os animais. E animais que estavam à nossa guarda, por quem nos responsabilizámos e para quem queremos um futuro bom e longevo.


A hora das adopções é sempre a nossa pior hora (só igualada pela triste morte dos animais que não conseguimos salvar, apesar de todas as tentativas) e por mais que digamos a nós próprios que tantos dos nossos animais ganharam casas e donos maravilhosos, são os casos falhados que nos ferem, que nos traumatizam. Porque o normal, para nós, é as coisas correrem bem, é as pessoas serem seres humanos bons, decentes e a sério. O resto apanha-nos sempre de surpresa. Por isso os entregamos sempre de coração apertado e em sobressalto. Porque não podemos ficar com todos os animais que salvamos.


Por que somos exigentes com as adopções?


Porque infelizmente há muita ignorância, muito desinteresse, muita falta de inteligência, muita gente para quem um animal é um brinquedo, ou um bibelot para ter em casa, e até gente que tem maldade. Mas há tanta estupidez por aí… e essa gente, que nem capacidade tem para cuidar de um animal, tão simples de cuidar, tantas vezes tem filhos. É arrepiante…

 

AS DATAS DAS FOTOS:

24 Julho 2014 – com a protectora (adoptada dia 26 Julho)

08 Agosto 2014 – pós-adopção, já internada na clínica

 

 

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