Última actualização: 13 May 2016.
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23-11-2017
Director: Filomena Marta
Periodicidade: Semanal

Editorial 10

 

Uma coisa é uma coisa… outra coisa é um animal

O estatuto dos animais está em discussão na Assembleia da República e divide opiniões, embora esteja a acontecer um consenso político histórico nesta questão, com o próprio Conselho Superior de Magistratura a louvar o avanço civilizacional.

Eis um assunto estranhamente considerado “fracturante” para algumas pessoas, ainda por cima “influentes”. Quando se fala de pessoas “influentes” fala-se inevitavelmente de comentadores e de cargos políticos, além de obviamente jornalistas (que se andam até a portar à altura neste também estranhamente sensível assunto).

É estranhamente fracturante, porque considerar um animal um ser vivo e não uma coisa é francamente linear e não deixa margem para dúvidas. Porque um animal é um ser vivo. Ponto final. Porque um animal não é uma coisa. Novo ponto final.

A palavra “estranho” é a que recorrentemente se encontra associada a esta simples e óbvia questão.
Portanto, a que se deve esta estranha divisão de opiniões?

Vamos por partes.

Parte 1 – há pessoas que não gostam de animais. Tout court. Ninguém é obrigado a amá-los, obviamente, mas todos devem respeitá-los, também obviamente. Não os amar não significa que se remetam os animais para a condição e importância das coisas. Mais ainda: dependendo da importância dada às coisas, pois há gente que dá mais polimento ao automóvel do que valor a um animal. Mesmo não os amando é gritantemente óbvio que um animal não é uma coisa. Não se compreende, portanto, onde reside a dúvida.

Parte 2 – há lobbies. Poderosos. Tourada, caça, pecuária. E destes o único “entendível” é o da pecuária, que “alimenta” o Homem. O resto é mera vaidade, espectáculo, entretenimento e pseudo-tradições que remontam a mentalidades medievais. E de fora continuam a ser mantidos os animais de circo e a experimentação em animais. E os lobbies têm medo ao sentir o seu poder e o seu feudo ameaçados.

Parte 3 – milhares de anos de evolução não retiraram ao Homem a sua costela troglodita. Pelo contrário, a este trogloditismo juntou-se o egoísmo e egocentrismo, juntou-se o interesse e o poder económico. A futilidade é um mal endémico das populações habituadas a existir para dormir, acordar, reproduzir-se, comer, ter um emprego e ver televisão. E aqui retornamos à importância da Comunicação Social e dos Comentadores. Uma importância que remete por sua vez para a defesa da “educação” aventada por Manuela Ferreira Leite no seu comentário sobre a nova lei dos animais. Há dúvidas de que este papel “educativo” também cabe aos jornalistas e aos comentadores?

Entregues que estamos a comentários da lavra de Miguel Sousa Tavares, Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa (agora Presidente da nossa República), a situação dos animais fica realmente difícil e comprometida. Convenhamos: não é fácil ser animal em Portugal. Como também é difícil ser Protector de Animais, esses “maluquinhos” que acham que os animais não são coisas.

No meio de toda a discussão sobre o estatuto dos animais e da penalização dos maus tratos, Manuela Ferreira Leite tem alguma razão, pouco sustentada: é importante a educação, mas como podemos confiar numa questão à partida comprometida pela falta de educação dos progenitores e da sociedade em geral? Como pode um pai que não respeita os animais ensinar outra coisa aos seus filhos?

A comentadora, e política, também não acredita na legislação, mas sem educação e sem legislação os animais ficam totalmente desprotegidos e à mercê da barbárie humana. A legislação é precisa. A punição também. É o método dissuasor de maus comportamentos mais rápido e eficaz. Se prevarica é castigado, e esta “educação” é válida e importante e em última análise essencial.

O que é estranho é que em pleno século XXI o animal seja considerado uma “coisa” em Portugal. Há já décadas que Ghandi referiu que “o progresso de uma Nação pode ser avaliado pelo modo como trata os seus animais”. Portanto, não estamos na cauda da civilização… mas estamos lá perto. E isso também se vê pelo “incómodo” e “confusão” que causa a muita gente haver um Partido político que defende o bem-estar animal e um deputado que na Assembleia da República zela por uma nova consciência e nível civilizacional do nosso país.

A mudança assusta. Mas felizmente a mudança está a acontecer, e não são apenas os animais a ganhar, também quem os protege e a sociedade em geral se elevam e ganham civilização.

Defender o animal, também é civilizar Portugal.

 

 

 

 

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