Última actualização: 13 May 2016.
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23-11-2017
Director: Filomena Marta
Periodicidade: Semanal

Editorial 9

 

 

A indiferença mata, mesmo!

 

É repetido vezes sem conta: o abandono mata, a indiferença mata.

O animal que é abandonado e que “vai ficar bem”, porque se vai “virar” sozinho na rua, não vai ficar bem coisa nenhuma, não se vai “virar” nada, vai definhar pouco a pouco e morrer de fome perante o olhar de indiferença de quem o vê na rua.

Se um animal nascido na rua já sente dificuldade em sobreviver, para um animal que cresceu e viveu protegido, num lar, a ser cuidado, o abandono é uma sentença de morte… longa, triste e dolorosa.

Basta o mais rudimentar sentido de decência e humanidade para o saber, nem sequer é preciso lembrar que o Manifesto de Cambridge, que reconhece senciência a todos os mamíferos e aves, foi assinado por uma equipa de cientistas e médicos. Não falamos daqueles que são tantas vezes considerados como “os maluquinhos dos animais”, mas sim de ciência.

Recordemos, uma vez mais, o que é senciência: a capacidade de sentir emoções e sensações, como o medo, a angústia, a dor, fome, sede e frio. Se cortarmos um animal ele sangra como nós, e como nós sente a dor e o medo. Se lhe negarmos alimento, ele, como nós, morre de fome.

No início de Maio de 2016 conduzia de regresso a casa. Reparei numa mulher acocorada na berma da estrada, e junto a ela um gato imóvel. Pareceu-me estranho e parei logo que foi possível. Fui ver, movida por esta terrível mania de não ser indiferente. Encontrei um gato, de raça, em estado lastimável, absolutamente caquético, já com profunda dificuldade em mexer-se.

A alma caridosa não percebia nada de gatos, assumiu-o sem vergonha, enquanto tentava que o pobre animal bebesse um pouco de leite de vaca. É mau o leite de vaca, principalmente para um animal tão debilitado, mas nada é pior do que a morte. Sabia que tinha de o retirar imediatamente da rua e prestar-lhe cuidados veterinários urgentes, desconfiando que já seria tarde demais. Sem transportadora no carro, pedi à senhora que o guardasse uns minutos e fui a casa buscar a caixa e uma manta.

Regressada, tapei-o com a manta e o seu estado era tão mau que o simples toque o fez cair de lado. Não se aguentava em pé, sequer. Já tinha ligado para a minha veterinária, que aguardava a sua chegada, apesar de ser hora de almoço. Gentilmente, conduzi o seu corpito embrulhado para a transportadora, sem ponta de resistência.

Quinze minutos de viagem… e chegada à clínica confessei que não sabia se o gato ainda estaria vivo. O pequeno resistente estava ainda vivo e a própria veterinária se comoveu com o seu estado. O cheiro a ureia era intensíssimo, o que indicava já graves problemas de rins. Era um gato já de idade, com uma anemia de tal forma grave que não havia pinga de sangue. Estava nítida e flagrantemente a morrer de fome. Não podia haver um prognóstico mais reservado. A opinião clínica, de uma médica veterinária especialista em gatos e que na sua prática clínica já observou milhares de pequenos felinos, era a de que não havia garantias de recuperação. Era necessária uma transfusão de sangue imediata, mas mesmo assim não havia garantia de sobrevivência. Caso sobrevivesse, poderia ter os rins muito danificados e seria uma lenta e dolorosa recuperação de largos meses, que poderia não conduzir a bom desfecho e o animal, idoso, ficar permanentemente fragilizado, doente e sem qualidade de vida.

A decisão difícil era a única decisão razoável: deixá-lo descansar para sempre, pelo menos com o calor de um último afecto e com a dignidade de morrer embrulhado numa manta e não abandonado na berma de uma estrada. E se para alguém isto é “humanizar” um animal, então todos os animais deveriam ser “humanizados”, depois de se “humanizar” o próprio Homem. O que está mal não é a “humanização” do animal, é a desumanização do Ser Humano.

Não lhe dei nome. Deixei-o partir, interiormente rogando pragas a quem o abandonou e a quem o viu definhar, sabe-se lá durante quantas semanas, na total frieza e indiferença.

Esta não é a minha Humanidade.

A minha humanidade não é a de casos como este, nem de casos como o cão Bóris, que na sua própria casa foi deixado a morrer de fome, e como o do cão Simba, morto a tiro e cujo dono teve uma pena maior em tribunal por chamar “assassino” ao “assassino”, do que o próprio “assassino” teve por matar o cão a tiro, deliberadamente. E isto num país que já criminalizou os maus-tratos contra animais… mas parece que nem todos os juízes têm essa consciência.

Porquê? Porque a desumanidade continua a valer mais do que o estatuto do animal, que continua a ser o de uma “coisa”. E continua a haver quem fique chocado por se querer mudar a realidade e dar aos animais o estatuto que merecem: o de seres vivos, que são. Infelizmente, muitos comentadores “famosos” contribuem para denegrir a imagem e a protecção dos animais.

Há cada vez mais gente a proteger os animais e a saber, como deveria ser regra geral, que eles são seres vivos, não são “coisas”. Também infelizmente, as mudanças são lentas, demasiado lentas, e quem os protege ainda faz parte da minoria… cada vez menos silenciosa.

 

 

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