Última actualização: 13 May 2016.
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23-11-2017
Director: Filomena Marta
Periodicidade: Semanal

Abusados para entreter os humanos

 

 

 

Circos: o inferno dos animais
por Filomena Marta

 

Atravessar um aro em chamas não é normal para nenhum animal, selvagem ou doméstico. Todos os animais têm um medo instintivo do fogo, só assim lhes é possível sobreviver aos incêndios na Natureza. Regra geral, um ser humano, uma pessoa, também não atravessa um objecto a arder, a menos que seja obrigada e coagida a fazê-lo. E fá-lo por medo. Com os animais nos circos a realidade é a mesma. Os animais actuam por medo, o medo de serem castigados, ou seja, espancados, pelo seu “tratador”.

No tradicional treino de cães, por exemplo, caiu totalmente em desuso o adestramento violento e passou a ser exigido que houvesse o chamado reforço positivo, ou seja, o animal aprende através de recompensas por algo bem feito ou por obedecer a um comando. Nos circos esta realidade não podia ser mais diferente e mais negra: os animais selvagens são dominados pela força, pela violência e pelo medo.

Os animais não pertencem em circos. O circo é o equivalente da escravatura para os animais. Arrancados aos seus habitats naturais, vivem em jaulas sem as mínimas condições para as suas necessidades, treinados com chicotes, aguilhões, correntes, subjugados pela dor e pelo medo.

Repetem-se os relatos de agressões aos animais dos circos, de maus-tratos físicos e psicológicos, há um manancial de gravações vídeo ocultas, de fotografias tiradas em segredo. Há casos tão graves como a mutilação de animais por extracção de presas e de garras, que incapacitam os animais para sempre, votando-os a uma existência de dor permanente e pondo em risco a sua própria vida.

Os elefantes, considerados animais de extrema inteligência, são humilhados ainda bebés e forçados a aprender truques em troca de submissão violenta e de dor.

Imagens chocantes foram captadas no famigerado circo Ringling Brothers, alvo de intensa polémica após as fotografias tiradas ocultamente, durante aquilo a que chamam “treino” dos elefantes e onde se vê uma cria totalmente manietada por grossas cordas e forçada a fazer o que os “tratadores” obrigam à custa de aguilhões afiados.

 

 

Imagens PETA

Por enquanto, nada disto afasta os frequentadores de circos com animais, que levam alegremente as crianças a assistir a leões e tigres domados pela ponta de um chicote, ou um macaco vestido de palhaço.
Um pouco por todo o mundo começa a crescer a consciência de que os animais não pertencem nos circos e muitos países já fizeram legislação a proibir a exibição de animais selvagens em circos. É o caso de várias cidades mexicanas, do Perú, da Bolívia, de Malta, da Grécia, do Chipre, do Paraguai, da Colômbia, da Holanda e da Eslovénia. A Bolívia foi o primeiro país a proibir todos os animais nos circos, tanto selvagens como domésticos, como é o caso dos cães, em 2009. Agora foi a vez de Malta seguir o exemplo, tendo proibido este mês, Outubro de 2014, todos os animais em circos, sem distinção entre domésticos e selvagens.

Em Portugal, por exemplo, em Outubro de 2009 legislou-se no sentido impedir os circos de comprar novos macacos, elefantes, leões, tigres ou hipopótamos, mas podendo manter os animais que já detinham antes da entrada em vigor da portaria 1226/2009. Detê-los e usá-los em espectáculos continuou a ser permitido. No entanto, ficou proibida a reprodução destes animais. Isto significa que os circos portugueses mantêm os animais até cerca de 2019 a 2029, dependendo da longevidade dos animais detidos em cativeiro nos circos ser de 10 a 20 anos, baseado em estimativas do Instituto da Conservação da Natureza e Biodiversidade (ICNB) nacional, tendo em conta a idade dos animais que viviam naquela data nos recintos circenses.

A proibição de exibição de animais em circos não está nem nunca esteve em vigor em Portugal, porque o ICNB não queria “uma mudança brusca” e pretendia que os circos se adaptassem ao novo regime, segundo palavras de João Loureiro, daquele Instituto, que adiantou que “o grosso dos animais detidos pelos circos [portugueses] são felinos, embora um circo tenha um elefante” e que “estes animais devem durar mais 10 ou 20 anos”.

A União Europeia, nesse mesmo ano, “lavou” as suas mãos de qualquer responsabilidade no assunto referindo que os Estados Membros devem legislar como entenderem na questão dos animais nos circos, apesar de serem feridas normas e disposições internacionais de protecção dos animais no que respeita esta questão.

Os animais dos circos portugueses ainda têm um longo percurso de cativeiro e abuso para percorrer, apesar de cada vez mais países optarem pela proibição total e imediata.

Na maior parte dos países os circos conseguem continuar a sua rotina de abusos e maus tratos aos animais porque não existe uma fiscalização eficaz, mas também porque a Comunicação Social não dá importância a este tema e o público nunca vê os bastidores de dor em que os animais são mantidos e treinados. Para o público, tudo é luz, cor, brilho e música. Os elefantes dançam, os macacos usam caras pintadas e os tigres são gatinhos a saltar de banco em banco.

 

Mas a realidade dos animais dos circos é triste, negra e dolorosa. Não são animais domésticos, não foram feitos para viver em cativeiro, fechados em jaulas e saguões desprovidos das mais básicas necessidades de espaço e estímulos para estes animais, e nem sequer privam da companhia e da atenção humana. As pessoas são os seres que lhes põem comida e os obrigam a trabalhar, num regime de escravos sem alma e sem direitos.

Fontes: Jornal I de 13 de Outubro 2009, Público de 15 de Outubro 2009, Portaria 1226/2009, “Os olhos dos Tigres” de Manuel António Pina in Jornal de Notícias, “Os animais têm direitos?” de Fátima Mariano in Jornal de Notícias de Outubro 2009, Expresso de 12 e 13 Outubro 2009, TSF em 12 e 13 de Outubro 2009, Anima Naturalis, The Guardian, The Independent, PETA, Huffington Post, One Green Planet, Animal Defenders International, Wildlife Extra News, ASPCA, Care2, YouTube, Last Chance for Animals (LCA), PAWS, Humane Society, Ian Somerhalder Foundation, Sun Sentinel, Los Angeles Times

Fotos: Pet Courrier; PETA (elefante bebé circo Ringling Bros.)

 

 

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